O poder do contexto

4.2.16


Andava por aí a lamuriar-me a propósito do fim de Dowton Abbey quando tropecei na adaptação para televisão de Guerra e Paz. Nunca li o livro de Lev Tolstói, mas estou a adorar cada episódio! Os cenários e ambientes são magníficos e tenho-me deliciado sobretudo com os nomes, que me têm recordado que, de facto, os antropónimos são um dos elementos mais importantes da nossa identidade cultural. Em português, Mária, Natacha [como é aprovado] ou Bóris não me encantam particularmente mas, naquele contexto, acho-os maravilhosos! E é por isso que continuo a achar tão fascinante conhecer as práticas onomásticas de cada país que, tantas e tantas vezes, ultrapassam largamente a questão do belo! 

24 comentários :

  1. Concordo :) Não conheço essa obra mas já me aconteceu gostar de nomes só em determinados contextos.

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  2. Estou a gostar muito da adaptação =) É um livro muito denso, o que dificulta a tarefa, mas ninguém sabe criar "period dramas" como os britânicos... (Case in point: Downton Abbey)

    Também tenho um fascínio por nomes de certas culturas - e, especialmente, em "manter o tema". Uma das minhas tias fez isso inadvertidamente: todos os filhos têm nomes romanos XD Acho o máximo que tenha acontecido por acidente.

    Tenho um carinho especial pela Rússia (já lá estudei), e, para mim, o que faz um nome soar russo são os diminutivos e os patronímicos - o nome do meio, que indica o nome do pai da pessoa. Na Rússia, não é invulgar tratar uma pessoa pelo primeiro nome e o patronímico, e os costumes restringem uma pessoa a três nomes: os já mencionados e o apelido.

    Contudo, parece que, recentemente, estão a tentar flexibilizar o sistema. Há pessoas que querem dar dois nomes próprios aos filhos, em vez de apenas um, e mães que querem dar aos seus filhos o seu patronímico em vez do dos pais das crianças (isto tem a ver com questões de tutela e afins). O meu próprio nome, que tradicionalmente não existia na Rússia, já começa a ser registado... =)

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  3. Guerra e Paz é o meu livro favorito e estou a gostar bastante da série. Os nomes que mais gosto são Nikolai e Anatole. Adoro a Rússia e nomes russos :) e claro literatura russa.

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  4. Que acham da apropriação cultural dos nomes?

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  5. Cláudia Sandal, também gosto muito de Nikolai =) É um daqueles nomes russos que mais evidenciam as diferenças linguísticas porque deve ler-se "Nikalai" - isto porque, sempre que não está na sílaba tónica, o "o" transforma-se" em "a".

    Adoro Tolstoy, mas ele que me perdoe... Acho que não volto a ler "Guerra e Paz" do princípio ao fim... =P

    Posso perguntar-lhe quais são os autores russos cuja obra já leu? =)

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    1. Mariana C. a pergunta era para mim certo? :) Eu li todos de Tolstoy, e se a Mariana so leu o Guerra e Paz então recomendo a leitura bem mais fácil e atrativa de Anna Karenina e A Morte de Ivan Ilich.
      Fora Tolstoy li e gosto muito de Dostoievski (todos são bons),Anton Chekhov, Pasternak e Nobokov.

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  6. Anónimo das 08:38, como assim?

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  7. Mariana C., também fiquei com algumas dúvidas mas penso que seja o que achamos do uso de nomes que inicialmente não são tradicionais naquele país, por exemplo se agora se usarem nomes "tipicamente" russos em Portugal. Pelo menos foi assim que percebi, um país "apropriar-se" de nomes que inicialmente não "eram" dele. Mas posso estar errada!

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  8. Maria Pilar, creio que tem razão =) Ainda que, se pensarmos nisso, todos os nomes "vêm de algum lado", por assim dizer... Mas é claro que existe sempre uma tradição associada a cada cultura que a distingue.

    Cláudia Sandal, por acaso também já li todos os livros de Tolstoi ;D "Anna Karenina" foi o primeiro... Ofereci-o a mim própria quando fiz 18 anos =) Também já li obras de todos os autores que nomeou e, da obra de Dostoievski, não consigo decidir qual é o meu favorito: se "Crime e Castigo", se "Os Irmãos Karamazov".

    Já leu alguma obra de Pushkin ou Bulgakov? E, deste último, "Master i Margarita" (acho que traduziram como "Margarida e o Mestre") em específico? É imperdível...

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  9. Nunca li, mas vou tratar disso então. :)

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  10. Sim, vamos a ver e todos os nomes vêm do mesmo "sítio"! Por isso quando dizem "Esse nome não é português" eu pergunto "Mas o que é um nome português? Mesmo os nomes portugueses não nasceram portugueses, nasceram germânicos ou de origem romana ou árabe, e esses por sua vez não nasceram germânicos nem romanos nem árabes... :) Mas sim, há nomes com mais tradição que outros, e mais familiares que outros.

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  11. Cara Maria Pilar, creio que no que toca a "nomes portugueses", só se for mesmo Natércia (anagrama de "Caterina", supostamente inventado por Luís Vaz de Camões) ou aquelas "versões" arcaicas de nomes que sobreviveram até aos nossos dias... Por exemplo, Duarte é a versão arcaica portuguesa de Eduardo (que, sob esta lógica, é o "importado"). Entrou para a família real portuguesa por ocasião do nascimento do futuro D. Duarte I a D. João I, Mestre de Avis, e D. Filipa de Lencastre. Aparentemente, estes combinaram em alternar os nomes dos filhos com as respectivas origens, e, se olharmos para a lista, esta parece confirmar essa teoria =)

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  12. Ah! A Rússia é um universo literário imenso e ainda pouco conhecido entre nós!Adoro esses dramalhões e para mim Eugene Onegin (Pushkin) e Anna Karenina (Tolstoi) são de leitura obrigatória! As versões cinema/séries dão vida à descrição dos ambientes e têm bandas sonoras fabulosas! Para assistir sempre com kleenex!!
    Com a última vaga de imigração dos países de leste começam agora a soar familiares alguns nomes próprios, como Nikolai, Serguei, Vladimir, Viascheslav (a grafia está decerto incorrecta), que começaram a aparecer no pós 25Abril com as Natachas, Catarinas.

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  13. O meu gato é Bóris. Adoro o nome! Não é russo, mas é tão amarelo como o Boris Beker!

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  14. Cara Oliveira Gisela, acabou de chamar a atenção para um fenómeno interessante na história dos nomes em Portugal... Estou a falar da vaga de diminutivos russos femininos: Sónia (Sofia), Tânia (Tatiana), Cátia (Catarina), Sandra (Alexandra), etc.
    O Observador publicou no ano passado um artigo interessante sobre as "modas" dos nomes portugueses, sugerindo que temos tendência a dar aos nossos filhos os nomes que as pessoas "bem sucedidas" dão aos deles. Esta expressão sugere não celebridades mas advogados, médicos, políticos, em suma, "the upper crust". A moda dos diminutivos russos é uma daquelas que ninguém consegue explicar e, se acreditarmos no artigo, a excepção que confirma a regra.

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  15. Há anos que não comentava o delicioso blog da Filipa e fico felicíssima pelas maravilhosas novidades (muitos parabéns, Filipa, decerto terá uma linda bebé). É engraçado ver que o esquadrão de fanáticos dos nomes aumentou, com contributos deveras interessantes.
    Em relação a este post, penso que o que dá interesse a estes nomes é mesmo o contexto. A Natasha é a Natasha também devido ao nome. Seria peculiar que se chamasse Teresinha. Ou que o nosso Carlos d'Os Maias se chamasse Ivan. Por isso é que estranho nomes estrangeiros em filhos portugueses de pais portugueses, com avós portugueses. Acho que é mesmo a falta de contexto que me choca, questão do gosto, hiper-subjectiva, à parte.
    Quanto à questão do «upper crust», sugiro a leitura interessantíssima do livro Freakonomics, no capítulo Does Your Name Matter?

    Beijinhos,

    Joana

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  16. Já nasceu o bebé da Rosa Pomar, chama-se Augusto! Não adoro, mas confesso que gosto do par com os nomes das irmãs mais velhas Elvira e Amélia.

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  17. Amo Augusto, está no meu top 10 e usaria com muito orgulho num filho! <3

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  18. Augusto é daqueles nomes que só me agradam como segundo nome... Como Alexandre. Ou Viriato.

    Já o russo Aleksander - ou Sasha - agrada-me muito =) Só não recomendo o uso de diminutivos russos masculinos em Portugal, porque as pessoas sabem ser más e eles têm tendência para acabar em "A": Andrucha, Sasha, Misha, Volodya, etc.

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  19. Joana,
    Não vejo porque motivo possa parecer estranho, que portugueses genuínos, optem por atribuir nomes "estrangeiros" aos seus filhos? Haverá sempre uma razão! Penso que os nomes oriundos dos países de leste inicialmente tiveram uma conotação política evidente, que posteriormente se foi banalizando. Mas, tendo em conta a tendência xenomaniaca dos portugueses em geral, é bem natural que o estrangeirismo comece no nome. Se for para o Brasil a bizarria parecer-lhe-à ainda maior!
    Só uma curiosidade, a comunidade chinesa em Portugal conta com muitas crianças nascidas em território nacional, com nomes portugueses bem curiosos, de onde se destacam nomes como: João, Paulo, Daniel, Liliana, Celina; Ana Luísa, Tiago, Nelson, Ângelo (talvez com fonia semelhante em chinês), mas também nomes como: Rui, Patrícia, Alexandra e Margarida.

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  20. Felicidades à mamã Rosa Pomar!! Augusto, para mim, só mesmo César.

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  21. Anónimo, lá está a minha estranheza... Essa obsessão por tudo o que vem de fora é muito à Dâmaso, completamente alheia à minha maneira de ser. Confesso que não sou adepta :D Quanto aos meninos chineses, penso que é diferente: esses meninos estão cá, os pais colocam-lhes nomes para se adaptarem à cultura do país em que vivem. A minha filha mais velha tem uma menina tailandesa na turma chamada Rosa e uma chinesa chamada Anabela. Não me causa estranheza se um casal português a viver na Grécia decidir chamar Stavros ao filho (nome completamente tirado da cartola, não percebo nada de nomes gregos), causa-me é chamarem Stavros a um filho em Portugal, sendo portugueses, sem a mínima ligação à Grécia (às vezes nem lá foram numas férias). Quanto à conotação política dos hipocorísticos (e não só) russos, confesso que não me tinha passado pela cabeça (é muito bem visto!). Beijinhos, Joana

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  22. No contexto da Montanha Magica ( T.Mann) acho o nome Hans Castorp simplesmente perfeito. Se me estou a lembrar bem da historia, havia uma rapariga de Leste chamada Claudia. Eu sempre achei o nome dela fora de contexto...estava a espera duma Natacha ou uma Svetlana.

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  23. Joana, obrigada pelas palavras tão simpáticas! :)

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Com tantos nomes à escolha, vai mesmo ser apenas Anónimo? :)